Cedeplar: 50 anos

Quem comemora rememora, mobiliza a memória, que, entre funções decisivas, tanto para indivíduos como para instituições, forja identidades. Somos o que lembramos ser, é nesta condição que projetamos como reais, os possíveis, o que se sonha e se acredita alcançável.

Para uma instituição como a nossa, um centro de ensino e pesquisa, que não pode deixar de ser crítica e auto-crítica, comemorar, legitimamente, é o justo regozijo, é momento de homenagear e de se alegrar, quanto não pode deixar de ser, também, a reflexão crítica sobre o que se fez, sobre as conquistas, sobre os fracassos, sobre os impasses e dificuldades que também eles nos acompanham e não podem ser omitidos.

Com efeito, não nos é dado, à universidade, a auto-complacência, a auto-indulgência. As grandes dificuldades que têm marcado a vida brasileira, suas mazelas estruturais, o descalabro de parte expressiva de seus governantes e lideranças, não nos eximem de buscar a construção de uma universidade capaz de atender as legítimas demandas da sociedade brasileira por prosperidade material e bem-estar social.

Assim, comemorar, para nós é, momento de prestação de contas, de exame lúcido do caminhado, é preparação para continuar avançando.

Cinquenta anos de vida de uma instituição não é fato trivial, em geral, e ainda mais expressivo quando considerado o contexto brasileiro, costumeiramente problemático, que está na base de descontinuidades e desaparecimentos de várias experiências assemelhadas à nossa.

Nascido com o nome de Instituto de Desenvolvimento e Planejamento Regional, IDEPLAR, em 1967, ligado à Reitoria da Universidade Federal de Minas Gerais, o Cedeplar, é dos mais antigos programas de pós-graduação em economia do Brasil. Sua criação deu-se ainda no âmbito da legislação sobre ensino superior anterior à Reforma Universitária de 1968. Essa circunstância, a vigência de legislação que concedia poder discricionário aos catedráticos, muitas vezes refratários à mudanças acadêmicas que ameaçassem seus poderes e privilégios, fez com que o Cedeplar fosse criado como órgão vinculado à Reitoria, no momento em que se ensaiava na UFMG significativo processo de modernização institucional.

O núcleo pioneiro de fundadores do Cedeplar foi composto de seis professores da Faculdade de Ciências Econômicas, a saber: Fernando Antônio Roquette Reis; Álvaro Santiago; Élcio Costa Couto; Paulo Roberto Haddad; Carlos Maurício Carvalho Ferreira e José Alberto Magno de Carvalho. Os três primeiros professores da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG, exerciam atividades no Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais, BDMG, e os três últimos professores em tempo integral na FACE/UFMG.

Inicialmente ligado à Reitoria da UFMG, com decisivo apoio do então Reitor, professor Aluísio Pimenta, o Cedeplar contou, para a sua implantação, com recursos financeiros da UFMG, da CEPAL/BNDE e da ONU. Os contatos, que viabilizaram o aporte de recursos da CEPAL/BNDE e da ONU, foram iniciados em 1966 e contaram com os importantes apoios do professor Daniel Britan e da professora Maria da Conceição Tavares.


O Contexto e as Circunstâncias da Fundação do Cedeplar

As temáticas que o Cedeplar buscou contemplar em seus cursos e pesquisas refletem a existência na FACE de uma tradição de estudos ligada à problemática do desenvolvimento regional e nacional em perspectiva convergente com o pensamento da CEPAL e do ISEB. Assim, é significativo que num momento em que a pós-graduação em economia iniciava-se no Brasil, a FACE tenha feito opção por linha de estudo e pesquisa com forte aderência à problemas estruturais do desenvolvimento brasileiro.

Aqueles foram tempos que exigiram de todos, pessoas e instituições, posicionamento frente à encruzilhada histórica que se apresentou ao Brasil em 1964. Não será forçado dizer que a escolha da FACE, nos limites em que isso pode se dar numa instituição heterogênea e plural, foi de repúdio à ordem ditatorial. Instituição marcada por intensa politização de seus professores e estudantes, a FACE foi vítima de inúmeras intervenções repressivas que marcaram o país depois de 1964, que envolveram prisões de estudantes e professores, expulsão e aposentadorias, além do controle, da censura e auto-censura que se impuseram, em graus variados, sobre cursos, programas, pesquisas, textos, etc.

De todo modo, dado o clima geral adverso às liberdades, contrário ao pensamento crítico, é significativa a escolha programática do Cedeplar: reconhecer a existência de desigualdades regionais, buscar entender as suas determinações estruturais, e, por fim, buscar construir instrumentos analíticos e políticas de superação do quadro de desigualdades regionais.

Mais tarde, com a introdução de estudos populacionais o Cedeplar confirmou essa sua adesão à uma visão de ciências sociais, que privilegia os seus aspectos estruturais, que não se curva aos modismos e às frivolidades tão costumeiras na academia em parte convertida ao adesismo à ordem.


O Projeto Acadêmico do Cedeplar

Fundado em 1967, o Cedeplar passou a funcionar, efetivamente, em 1968, oferecendo, inicialmente, um curso de mestrado em economia regional, que teve em sua primeira turma 9 alunos. O curso tinha a duração de 12 meses e foi modificado, em 1971, passando a ser ministrado, a partir daí, em 18 meses, havendo, também, nesse ano, modificação no processo seletivo, que passou a ser feito em conjunto com o IPE/USP e a FGV/RJ. Essas iniciativas estão na base da criação da ANPEC, em 1972, processo do qual participou ativamente o Cedeplar, sendo o seu então diretor, professor Paulo Haddad, o primeiro secretário geral da ANPEC.

Ao mesmo tempo que desenvolveu um esforço de auto-afirmação e definição de linhas estratégicas de ensino e pesquisa, o Cedeplar buscou consolidar-se institucionalmente e ampliou sua rede de contatos que lhe garantiram tanto apoio acadêmico, quanto recursos financeiros de instituições nacionais e estrangeiras, como a FINEP, o Ministério do Interior (SUDAM), o Ministério da Agricultura, o Ministério da Saúde, o Ministério do Planejamento, o IDRC-Canadá, a OMS, a Fundação FORD, a Fundação Rockefeller, a Fundação Hewlett, entre outros.

A partir de 1973, com a volta do professor José Alberto Magno de Carvalho de seu doutorado em demografia, cursado na Inglaterra, o Cedeplar incorporará com a área central de suas atividades de ensino e pesquisa os estudos populacionais.

Em 1975, o Cedeplar deu ainda um outro passo no sentido da ampliação de sua estrutura curricular pela confirmação de três grandes áreas de concentração – Economia Regional, Demografia Econômica e Teoria Econômica, - que correspondiam à diversificação de seu corpo docente e de seu projeto acadêmico.

A partir de 1992, com a criação do Departamento de Demografia, o Cedeplar experimentou uma nova mudança importante com a consolidação da área de demografia, que vai se consagrar como uma das mais importantes do Brasil, tendo efetiva inserção e prestígio internacionais.

O sucesso dos programas de pós-graduação do Cedeplar pode ser aferido de vários modos: pelo número de alunos formados; pela relevância de seus estudos e pesquisas; pela atualização de seus currículos e programas; pela produção acadêmica de seus alunos e professores.

É isso que está sintetizado na avaliação da CAPES que confere nota 7 ao programa de pós-graduação em Demografia e nota 6 ao programa de pós-graduação em economia do Cedeplar. Ambos os programas integram os núcleos de excelência da Capes.


Mais informações no portal web do Cedeplar